Caso Benício: polícia conclui que menino morreu após erro médico e overdose de adrenalina em hospital de Manaus

A Polícia Civil concluiu o inquérito que investigava a morte do menino Benício, de 6 anos, e apontou que a criança foi vítima de erro médico após receber uma overdose de adrenalina intravenosa durante atendimento no Hospital Santa Júlia, em Manaus.

O caso

Benício deu entrada na unidade hospitalar com quadro de tosse seca e, segundo a investigação, não apresentava sinais de gravidade naquele momento. Ainda assim, a médica responsável pelo atendimento, Juliana Brasil, prescreveu adrenalina intravenosa, medicamento considerado de alta vigilância.

A prescrição foi realizada sem a devida conferência e encaminhada para a técnica de enfermagem Raiza Bentes, que aplicou a medicação mesmo após a mãe da criança alertar que o filho nunca havia recebido adrenalina na veia. Pouco depois da aplicação, o menino começou a passar mal.

Benício foi levado para a chamada “sala vermelha”, onde permaneceu em estado grave sob cuidados intensivos. Cerca de 14 horas depois, ele morreu na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital.

Conversas sobre vendas durante atendimento

Durante a investigação, a polícia analisou o celular da médica Juliana Brasil, apreendido após a morte da criança. De acordo com os investigadores, mensagens encontradas no aparelho mostram que, enquanto acompanhava o caso de Benício, a médica trocava mensagens relacionadas à venda de cosméticos e recebia pagamentos via Pix.

Para o delegado Marcelo Martins, o conteúdo reforça a tese de negligência no atendimento prestado ao menino.

Tentativa de afastar responsabilidade

O inquérito também aponta que a médica tentou atribuir o erro ao sistema eletrônico do hospital. À Justiça, Juliana apresentou um vídeo alegando que a plataforma de prescrição teria alterado automaticamente a forma de administração do medicamento.

Entretanto, uma perícia técnica concluiu que o sistema não apresentou falhas. Além disso, segundo a polícia, mensagens encontradas no celular indicam que a médica teria oferecido dinheiro para que uma pessoa gravasse um vídeo sustentando a versão apresentada judicialmente.

Por conta disso, Juliana Brasil foi indiciada por homicídio doloso com dolo eventual, quando se assume o risco de provocar a morte, além de fraude processual e falsidade ideológica. A investigação também apontou que ela se apresentava como pediatra sem possuir especialização na área.

A médica responderá ao processo em liberdade.

A defesa de Juliana sustenta que o sistema de prescrição apresentou problemas, afirma que o vídeo é verdadeiro e aponta supostas falhas durante o procedimento de intubação da criança. Sobre as mensagens relacionadas à venda de maquiagem, a defesa alegou que, naquele momento, Benício já não estava mais sob responsabilidade direta da médica.

Técnica de enfermagem também foi indiciada

A técnica de enfermagem Raiza Bentes, que atuava havia apenas sete meses na profissão, também foi indiciada por homicídio doloso com dolo eventual.

Segundo depoimentos colhidos pela polícia, outra profissional chegou a orientar Raiza a administrar a adrenalina por inalação e deixou um kit de nebulização preparado. Mesmo assim, ela seguiu a prescrição médica e aplicou o medicamento por via intravenosa, descumprindo protocolos de segurança, como a obrigatoriedade da dupla checagem.

A defesa informou que Raiza está suspensa do exercício profissional e que não pretende retornar à atividade.

Falhas estruturais no hospital

As investigações concluíram ainda que o Hospital Santa Júlia operava, naquele dia, com número insuficiente de enfermeiros e sem farmacêutico responsável por conferir prescrições médicas.

Diante disso, os diretores da unidade hospitalar, responsáveis pelas contratações, foram indiciados por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, mas ocorre negligência.

Para a polícia, a prioridade da direção era reduzir custos para aumentar os lucros da instituição.

Em nota, o hospital informou que ainda não foi oficialmente comunicado sobre o indiciamento dos diretores, afirmou estar à disposição das autoridades e reiterou compromisso com a segurança dos pacientes.

Família pede justiça

Os pais de Benício afirmaram estar satisfeitos com a conclusão do inquérito e esperam que os responsáveis sejam responsabilizados judicialmente. Médica e técnica de enfermagem podem ser levadas a júri popular.

“Os responsáveis precisam ser punidos pelo que aconteceu, até mesmo para que outras crianças e outras famílias não passem pelo que estamos vivendo”, afirmou Joyce Xavier de Carvalho, mãe do menino.

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