O clima da disputa pelo Governo do Amazonas ganhou novos contornos durante o lançamento da pré-candidatura do governador Roberto Cidade (União Brasil). Em discurso direcionado ao senador Omar Aziz (PSD), principal adversário na corrida eleitoral, Cidade elevou o tom das críticas e acusou o parlamentar de utilizar sua influência sobre órgãos de investigação para intimidar adversários políticos.
“Diz que vai prender todo mundo. Vai prender nada! Porque aqui só tem homem de bem”, afirmou o governador diante de apoiadores.
A declaração, no entanto, ocorre em meio à repercussão de um processo judicial que envolve Paulo Victor de Brito Alvino, conhecido como “Paulinho”, filho de Vanderlei Alvino, o “Vandex”, diretor do Centro de Cooperação Técnica do Interior (CCOTI) da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam). Vandex é casado com Adriana Cidade, prima do governador, mantendo proximidade com o núcleo político do chefe do Executivo estadual.

Processo do Santander envolve movimentação superior a R$ 1 milhão
O caso está relacionado ao processo cível nº 4001124-67.2025.8.26.0100, ajuizado pelo Banco Santander na Justiça de São Paulo. Segundo a instituição financeira, mais de R$ 1,1 milhão teriam sido desviados da conta do biólogo Ernst Wilhelm Graef, cliente idoso do banco, sendo posteriormente transferidos para contas de Paulo Victor e da empresa DMP Comércio e Serviços.
Na defesa apresentada ao Judiciário, Paulo Victor sustentou que teria permitido a utilização de suas contas bancárias por duas pessoas de sua confiança, identificadas como Brenda e Ítalo, que, à época, trabalhavam na agência do Santander instalada no INPA, em Manaus. Conforme sua versão, ele acreditava estar apenas intermediando recursos pertencentes aos próprios funcionários, sem conhecimento de qualquer irregularidade.
O Santander contestou essa narrativa. Para o banco, a versão apresentada pela defesa seria incompatível com a movimentação financeira registrada no processo. A instituição argumentou que o recebimento de valores milionários, seguido da distribuição dos recursos para contas em diferentes instituições financeiras e da realização de saques em espécie, indicaria participação essencial na operacionalização da fraude.
A tentativa da defesa de transferir o processo para a Justiça do Amazonas também foi rejeitada, permanecendo a ação em São Paulo.
Na sentença, a magistrada afastou a tese de que Paulo Victor teria sido apenas um intermediário de boa-fé. A decisão reconheceu responsabilidade civil pelos prejuízos apontados pelo banco e determinou que Paulo Victor pague R$ 675 mil. Já a empresa DMP Comércio e Serviços foi condenada ao ressarcimento de R$ 500.050,00. Sobre os valores incidem correção monetária e juros legais, além da condenação ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios fixados em 10% sobre o valor da condenação. Cabe recurso da decisão.
Disputa política amplia tensão entre os grupos
A declaração de Roberto Cidade também foi interpretada por observadores da política amazonense como um novo capítulo da crescente polarização entre os grupos liderados pelo governador e pelo senador Omar Aziz.
Até o momento, Omar Aziz tem concentrado seus discursos em críticas relacionadas à Operação Sangria, investigação que atingiu a gestão do ex-governador Wilson Lima, aliado político de Cidade. Por outro lado, o senador também enfrenta questionamentos recorrentes de adversários em razão de investigações relacionadas à Operação Maus Caminhos.
Nos bastidores, aliados avaliam que o discurso de Cidade busca antecipar possíveis ataques envolvendo pessoas próximas ao seu grupo político.
Outro elemento que reforça esse cenário é o rompimento político entre Roberto Cidade e a deputada estadual Alessandra Campêlo, que durante anos integrou o mesmo grupo e atualmente se aproxima de forças políticas adversárias ao governador. A mudança de posicionamento da parlamentar alimenta especulações sobre a possibilidade de novos embates e da utilização de informações acumuladas durante o período em que integrou a base governista.
Com o início efetivo da disputa eleitoral, a tendência é que os confrontos entre os dois principais grupos políticos do Amazonas se intensifiquem, ampliando o debate não apenas sobre propostas de governo, mas também sobre episódios e investigações envolvendo aliados de ambos os lados.











